Quanto vale ou é por quilo? Os impactos socioambientais da IA
“Nós sabemos que precisamos renunciar às coisas que estão estragando a nossa vida no planeta, o problema é que as pessoas querem renunciar a elas por outras coisas mais novas e bonitas“
Ailton Krenak, A vida não é útil.
Em 2025, realizamos o VIII Encontro da REDE com o tema Inteligência Artificial e Internet: a governança diante das transformações sociotécnicas. As tensões geopolíticas que alimentaram a corrida tecnológica entre Estados Unidos e China pelo desenvolvimento da IA generativa, os avanços e desafios regulatórios na Europa e Brasil, bem como o próprio questionamento da possibilidade de uma inteligência maquínica, estiveram entre as indagações que abriram as provocações-convite de nossa última chamada.
De modo pouco habitual, em 2026 decidimos manter a IA em pauta, dados os inegáveis impactos que a pervasividade de tecnologias relacionadas tem provocado em escala planetária. Ao longo do último ano, assistimos à sedimentação da IA como base que se acopla a sistemas consolidados de educação, saúde, trabalho e gerenciamento de relações interpessoais e administrativas, não apenas somando-se às estruturas, mas imprimindo uma nova hegemonia epistêmica que altera as formas de existência na Terra. Concomitantemente, alastram-se debates sobre propostas legislativas de regulação da IA e infraestruturas relacionadas, em meio ainda a propostas do governo federal de incentivos fiscais para o estabelecimento de grandes data centers em todo o país, sob a promessa de um futuro tecnológico e, ao mesmo tempo, “sustentável”.
As tecnologias de Inteligência Artificial, no entanto, integram uma razão epistêmica extrativista, designada Epistemologia de Dados, por Paola Ricaurte, em que “a própria vida nada mais é do que um fluxo contínuo de dados” (Ricaurte, 2019, p. 352). Em linha similar e anteriormente, Milton Santos (2009 [1996]) criou o par conceitual Tecnosfera e Psicosfera para descrever a indissociabilidade entre as tecnologias que inscrevem na Terra novos meios geográficos e as mudanças nas formas de ser, pensar e sentir que também imprimem em nós.
Todo paradigma técnico provoca processos de mundificações que alteram substancialmente a natureza e nossas almas, como nos alerta Donna Haraway (2022), em sua perspectiva simpoiética. O extrativismo da natureza é a base da existência do extrativismo de dados, a partir da extração de minerais, de água e de energia. Como demonstra Kate Crawford (2025), na obra Atlas da IA, a mineração da Terra é condição para a mineração de dados que sustenta a aprendizagem de máquina por trás da IA.
Entretanto, a geografia que a IA inscreve na Terra a partir da extração de cobalto, lítio, terras raras, ouro, cobre entre outros minerais, bem como os impactos ambientais de datas centers, são viabilizados por um sistema que esconde seus reais custos socioambientais. Nesse contexto, se redesenham relações de colonialidade a partir de narrativas relacionadas à modernidade e desenvolvimento, e um conhecido tutelamento epistêmico de organismos nacionais e internacionais, com uma agenda de salvacionismo tecnológico que afeta sobretudo a população racializada, os povos originários e tradicionais, cujas terras e vidas se tornam alvo dos extrativismos que sustentam o mercado da alta tecnologia.
Nesse sentido, “para entender os negócios da IA, precisamos considerar a guerra, a fome e a morte que a mineração traz a tiracolo” (Crawford, 2025, p. 46), configurando novas expressões de racismo ambiental em sua cadeia de produção, mas também presente no seu próprio modo de funcionamento, carregado de vieses raciais e de gênero, automatizando a reprodução das desigualdades socioestruturais em formas dataficadas de quantificação do valor da vida. Assim, questionamos aqui a colonialidade dos valores que sustentam a IA bem como os processos de valoração de todas as formas de vida da Terra: Quanto vale ou é por quilo?
Diante de tais enredamentos, essa chamada-provocação convida a reflexões imaginativas que contribuam para pensarmos juntes os emaranhados materiais-discursivos que constituem os atuais movimentos de planetarização da IA e seu devir-com as redes digitais. Embora a Internet seja a base para o desenvolvimento da IA, cada vez mais assistimos a processos tecnossimbióticos (ou tecnoparasitários?) nos quais esses dispositivos afetam a própria natureza da rede.
Também evidenciamos os efeitos que os acoplamentos dessas tecnologias baseadas em aprendizagem de máquina provocam em termos de esgotamento ambiental (energético, hídrico e mineral), rastreando a infraestrutura material que afeta de modo desigual o corpo social e os diferentes corpos, desencadeando movimentos de resistência e contra-colonialidade.
A partir das questões colocadas, convidamos a submissões de trabalhos que contribuam para a discussão sobre como essas transformações tecnológicas afetam a Governança da Internet, e o que pode ser feito por meio da Governança da Internet em relação às múltiplas crises criadas pela IA. Entre questões-provações que motivam esse encontro, estão:
- Quais são as materialidades infraestruturais que compõem os sistemas de IA e como se articulam com a Internet?
- Quais são os principais dispositivos sociotécnicos que dão corpo e concretude à IA, a exemplo de seu emprego em sistemas de saúde, educação e agentes de IA?
- Quais são os custos ambientais gerados pela IA e como afetam populações originárias, negras, quilombolas e tradicionais, juntamente com seus territórios, configurando formas atualizadas de racismo ambiental?
- Como se criam novos mercados financeiros e de especulação em torno desses sistemas e como sistemas de regulação, ou a falta deles, contribuem para o cenário atual?
- Quais epistemologias sustentam a planetarização da IA e quais contra-racionalidades produzem enfrentamentos?
- Como situar a soberania nacional em meio a propostas de regulação da IA e políticas públicas para infraestruturas digitais como data centers?
É possível uma IA feminista, indígena ou antirracista?
O IX Encontro da Rede de Pesquisa em Governança da Internet “Quanto vale ou é por quilo? Os impactos socioambientais da IA” é este espaço de acolhimento para reflexões e debates acadêmicos sobre este conjunto de questões e se realizará no dia 25 de maio de 2026, em Belém (PA), no dia Zero do Fórum da Internet no Brasil.
Referências
CRAWFORD, Kate; AMARAL, Humberto do. Atlas da IA: poder, política e os custos planetários da inteligência artificial. São Paulo, SP: Edições Sesc, 2024.
HARAWAY, Donna. Ficar com o problema: Antropoceno, Capitaloceno, Chthuluceno. In: MOORE, Jason W. (Org.). Antropoceno ou Capitaloceno? : Natureza, história e a crise do capitalismo. São Paulo: Editora Elefante, 2022.
RICAURTE, Paola. Data Epistemologies, The Coloniality of Power, and Resistance. Television & New Media, v. 20, n. 4, p. 350–365, 2019.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2009 [1996].
1. A quem se dirige essa chamada de trabalhos?
A chamada de trabalhos se dirige a pesquisadoras/es, professoras/es e estudantes das diversas áreas e níveis de escolaridade que investigam objetos e temas da Governança da Internet e IA, que estejam interessadas/os na apresentação dos resultados de suas pesquisas em andamento. As/os as/os participantes terão a oportunidade de ler e apreciar os trabalhos das/dos outras/os participantes do Encontro, num intercâmbio de abordagens, metodologias, referências e experiências.
2. Que tipo de contribuição esperamos receber?
- Propostas de artigos em andamento, não publicados ou apresentados em outros fóruns de discussão;
- Trabalhos baseados em pesquisa que podem envolver análise de literatura, análise de dados qualitativos e/ou quantitativos;
- Propostas de novas abordagens teóricas e metodológicas para a pesquisa sobre Governança da Internet e IA;
- Pesquisas de cunho inter, multi e transdisciplinar sobre Governança da Internet e IA;
- Medições e dados inéditos sobre o uso e desenvolvimento da rede em temas concernentes à Governança da Internet e IA.
3. Eixos Temáticos:
- Mecanismos, instituições e atores da Governança da Internet
- Recursos Críticos da Internet
- Proteção de Dados e Privacidade na rede
- Infraestruturas da Internet
- Cultura e Diversidade
- Economia da Internet
- Medições de uso e desenvolvimento da Internet
- Neutralidade da Rede
- Padrões e protocolos
- Cibersegurança
- Jurisdição
- Propriedade Intelectual e Internet
- Direitos humanos
- Políticas públicas sobre a Internet
- Liberdade de Expressão na rede
- Princípios da Governança da Internet
- Tecnologias emergentes e seus impactos
- Tecnologias livres e redes autônomas
- Meio ambiente e tecnologia
- Tecnologia e geopolítica
- Desenvolvimento de modelos de “inteligência artificial”
4. Formato do evento:
Em 2026, o encontro da REDE ocorrerá de modo presencial, no dia Zero do Fórum da Internet no Brasil (FIB16), que este ano se realizará na cidade de Belém, PA. Após a seleção dos trabalhos, os participantes do Encontro devem se inscrever no FIB para acessar os outros debates do Fórum.
Como nas edições anteriores, o Encontro da REDE 2026 proporcionará a discussão aprofundada e focada no desenvolvimento de trabalhos em andamento, a partir de um resumo expandido que, ao final do processo, resultará em um artigo a ser publicado nos anais do evento.
O evento contará com diferentes painéis, cada um dedicado ao debate de três trabalhos agregados conforme afinidade temática ou metodológica. Os trabalhos serão apresentados de forma sucinta pelas autoras/es ao início da sessão, para em seguida serem apreciados e comentados por debatedoras/es qualificadas/es/os além de demais autoras/es e o público presente e remoto. Ao participar do evento, autoras/es se comprometem a ler e a comentar os outros dois trabalhos que serão apresentados em sua sessão.
5. Formato dos Trabalhos
1a etapa – Seleção (proposta)
As/es/os autoras/es deverão submeter propostas de trabalhos em andamento que tenham entre 800 e 1000 palavras (excluídos resumo e referências) e que estejam estruturadas do seguinte modo:
- Título
- Resumo (máximo 250 palavras)
- Palavras-chave (3 a 5)
- Resumo expandido (é desejável que contenha: introdução, objetivos, métodos, bases teóricas, justificativa, discussão-resultados)
- Referências bibliográficas
Os trabalhos devem ser formatados no modelo disponibilizado pela REDE a seguir. Utilize o template para submissão. Trabalhos fora do formato não serão considerados
As contribuições submetidas poderão ser escritas em Português, Inglês ou Espanhol, e serão avaliadas por, no mínimo, 02 (dois) pareceristas.
2a etapa – Discussão (trabalhos em andamento)
Os trabalhos em andamento para discussão deverão ter entre 3500 e 4500 palavras (excluídos resumo e referências), e deverão seguir a mesma estrutura e template definidos para a proposta. Tais trabalhos circularão entre debatedoras/es e moderadoras/es antes do evento, com tempo hábil para a elaboração de comentários.
Os trabalhos serão discutidos de modo presencial no dia Zero do Fórum da Internet no Brasil. Os debates serão feitos em Português.
3a etapa – Anais (artigo)
Ao participar do Encontro, as/es/os autoras/es se comprometem a enviar seu artigo completo, considerando as discussões e comentários das/es/os debatedoras/es, após aproximadamente 45 dias do evento para publicação nos Anais do Encontro (confira as edições anteriores aqui). O não envio do artigo completo pode implicar na sua não consideração em edições posteriores do evento.
O artigo final deverá conter de 6000 a 7000 palavras e deverá estar de acordo com a norma ABNT para apresentação de trabalhos acadêmicos (ABNT NBR 14724) e para referências bibliográficas (ABNT NBR 6023).
6. Datas Importantes (2026):
- 19 de janeiro – Abertura para submissões
- 01 de março – Prazo para submissão de resumos estendidos
- 24 de abril – Resultado dos trabalhos selecionados
- 30 de abril – Prazo para confirmação da participação
- 20 de maio – Entrega dos trabalhos em andamento
- 22 de maio – Circulação dos trabalhos para debatedoras/es e moderadoras/es
- 25 de maio – IX Encontro da REDE (REDE 2026)
- 30 de junho – Entrega do trabalho final para Anais da REDE
7. Local do evento:
Todas as sessões de debate de trabalhos ocorrerão presencialmente no dia Zero do Fórum da Internet no Brasil no na cidade de Belém do Pará, no dia 25 de maio de 2026.
8. Auxílio financeiro:
A REDE não pode garantir apoio financeiro às pessoas participantes, mas trabalharemos para buscar recursos para subsidiar parcialmente a participação no evento. Detalhes sobre os auxílios-viagem serão divulgados em momento oportuno.
PARA SUBMETER O SEU RESUMO ESTENDIDO, ACESSE AQUI.
Apoio:
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